sexta-feira, 1 de julho de 2016

PROUSTIANAS 6



   Destreza, só tornava a encontrá-la no amor, graças a essa tocante presciência das mulheres que amam tanto o corpo do homem que adivinham no primeiro instante o que dará mais prazer a esse corpo, no entanto tão diferente do seu.

  [...] a ideia da maldade tem para mim algo de demasiado doloroso.

   O que chamamos nossa conduta permanece ignorado de nosso mais próximo vizinho; o que esquecemos haver dito, ou que até nunca dissemos, vai provocar hilaridade até num outro planeta, e a imagem que os outros formam de nossos gestos e atitudes tão pouco se parece com a que nós próprios formamos, como com um desenho um decalque mal feito, e onde ora a um traço negro corresponde um espaço vazio, e a um branco um contorno inexplicável.

   E dirigiu à mãe as censuras de que talvez se sentisse merecedor; é assim que os egoístas têm sempre a última palavra [...]

   Há males que de que não se deve buscar a cura porque só eles nos protegem contra males mais graves.

   Pois como a medicina é um compêndio dos erros sucessivos e contraditórios dos médicos, recorrendo aos melhores destes, corre-se o risco de solicitar uma verdade que será reconhecida falsa alguns anos mais tarde. De modo que acreditar na medicina seria a suprema loucura se não acreditar nela não fosse loucura maior, pois desse amontoado de erros se desenvencilharam com o tempo algumas verdades.

   Suporte que a considerem uma nervosa. A senhora pertence a essa família magnífica e lamentável que é o sal da terra. Tudo o que conhecemos de grande nos vem dos nervosos. Foram eles e não outros que fundaram as religiões e compuseram as obras-primas. Jamais o mundo saberá tudo quanto lhes deve e principalmente o quanto eles sofreram para lhe dar o que deram. Apreciamos as finas músicas, os belos quadros, mil delicadezas, mas não sabemos o que isso custou, aos que inventaram, em insônia, em lágrimas, em risos espasmódicos, em urticárias, em asmas, em epilepsias, e numa angústia de morrer que é pior que tudo isso [...]

   [...] essa estranha indiferença que temos para com nossos parentes enquanto vivem, que faz com que os negligenciemos em favor de todo mundo [...]

   É um terrível conhecimento, menos pelos sofrimentos que causa do que pela estranha novidade das restrições definitivas que impõe à vida. Vemo-nos morrer, neste caso, não no próprio instante da morte, mas meses, até anos antes, desde que ela veio hediondamente morar conosco. 


 Extraídos do vol. 3 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, "O caminho de Guermantes", com tradução de Mário Quintana, editora Globo, 1964.

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