sábado, 9 de dezembro de 2017

COLUMBUS, O FILME


 
   Um filme gêmeo de Paterson, de Jim Jarmusch.
   De igual forma, belíssimo.
   Columbus é uma cidade, Paterson, também.
   A arte é o tema central de ambos os filmes.
   Filmes sobre nada.
   Não há neles coisa alguma que encante as novas gerações, com todo o respeito possível às exceções.
   Paterson é poesia, Columbus é poesia da matéria, se é que isso diz algo.
   Uma personagem transita pela cidade. E a admira, e dela bebe beleza.
   Columbus é pura imagem. Ângulos estonteantes, equilíbrios quase mágicos de cores.
   E a história? Que história?
   Kogonada, o diretor, trouxe o que há de mais impactante na arquitetura, uma presença disfarçada imprescindível, a construção humana que dá sentido à natureza em volta. 
   Cores, equilíbrio, alumbramento.
   Um filme onde nada acontece, ou quase nada. Mas que expõe a vertigem da forma em sua solidez ilusória, um golpe na mesmice.
   Como em Paterson, um asiático chega à cidade. Não no final, mas no início. Como em Paterson, a rotina impera, mas não aprisiona,     
   Como em Paterson, a lição pode ser registrada em caderninhos, mas é preciso reparar naquilo que nos cerca, no sonho real, no abraço possível, na proximidade a que negamos mérito. 
   Mais que um surpresa, Columbus reafirma a potência do cinema independente dos EUA. E nos faz espectadores confiantes no futuro do cinema. Como Paterson já adiantou.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

MINHA SANDÁLIA HAVAIANA

Baixar EGI TUBE: Chinelo remendado

    Veio pelo WApp, semana passada, foto de uma sandália havaiana toda estropiada, com seus pedaços ligados por arames e fios. E um áudio em que o sujeito lá dizia que, se quebrasse de novo, jogaria fora a sandália.
     Claro que a mensagem me remeteu imediatamente à minha distante infância no sertão do São Francisco. Tempo em que produtos industrializados eram raros - falo dos anos 1960, antes de o asfalto nos estragar de vez a vida. 
     O que me chegou pelo zap era bem comum, naquele tempo, ou seja, remendar os calçados. Todos os calçados. Botar meia-sola em sapato, trivial. Repor tiras em sandália de couro, normal. Isso, sem falar em trocar saltos, fivelas e quejandos. Havia vários sapateiros no lugar.
     As havaianas eram frágeis para o puxado do areão das ruas, da lama da beira do rio, dos gravetos da caatinga. Fatalmente quebravam as tiras ou folozavam os encaixes (para não dizer buraquinhos) e viviam soltando as pontas.
     Pessoal, aquilo parecia um ato libidinoso.  Eu, menino, cansei de passar sabão no orifício para poder meter lá, de novo, a cabeça da tira solta. E quando o buraco folgava de vez, não havia outro jeito: enfiava-se um prego na transversal para prender a ponta com firmeza por baixo da sandália. Não sei se consegui me explicar direito, mas quem passou por isso sabe do que estou falando.
     E quando rompia a tira, juntava-se os dois pedaços no bico da chama de um isqueiro, ou coisa parecida, e quando a borracha começava a derreter juntava-se as pontas que, a frio, emendavam-se. Coisa precária, mas que dava uma sobrevida à sandália.
      Tudo isso porque, ontem à noite, minha sandália havaiana quebrou a tira. E nada disso é mais possível, perdeu seu tempo de ser. E como o dia passou e não comprei outra, estou agora de pés na cerâmica fria, enquanto escrevo estas linhas. O tempo de ser...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

LIÇÕES DE ROTEIRISTAS, KEVIN CONROY SCOTT



   O livro foi lançado pela Civilização Brasileira em 2008, com tradução de Beatriz Penna Vogel e Angélica Coutinho. São 19 entrevistas reunidas em 391 páginas. Um volume que começo hoje a enfrentar com o meu já confessado ritmo stop and go de leitura. Mas adianto algumas pérolas do primeiro entrevistado, Ted Tally, que adaptou o romance de Thomas Harris para o aclamado "Silêncio dos inocentes", dirigido por Jonathan Demme, com Jodie Foster e Anthony Hopkins representando os principais papéis. E essa foi uma sábia decisão do idealizador e organizador do volume, KC Scott, a de entrevistar o roteirista sobre um, e apenas um, roteiro por ele desenvolvido. Assim aprofunda as questões e aproxima o leitor que, obviamente, assistiu ao filme, desse trabalho fundamental para a indústria cinematográfica, o da construção de um bom roteiro.

   TED TALLY

   Parece que é sempre banquete ou fome. Não tenho nenhum tipo de plano de ação. Posso ficar três ou quatro anos sem fazer nenhum filme e depois dois ou três serão feitos ao mesmo tempo. Não acho que exista muita lógica nesse negócio.

   ...trabalho a partir do tratamento, que tem como objetivo ser uma ferramenta, reduzir o livro a um nível manejável e me dar a ilusão de que tenho um guia para o roteiro. Nunca funciona exatamente assim: quando se está escrevendo, a gente descobre continuamente que aquilo que achava necessário no final das contas não é, então arranca três páginas do tratamento, joga-as fora e faz uma outra coisa, improvisa. Eu queria que houvesse uma maneira de saber essas coisas com antecedência, pouparia muito tempo e muito sofrimento.

   Alguém disse, e não é um grande exagero: "Em um roteiro, a única coisa que importa são as primeiras dez páginas, e a única coisa que importa em um filme são os últimos dez minutos." Do ponto de vista de Hollywood, há uma certa verdade nisso. Se as primeiras dez páginas não prenderem o agente, então ele não vai dizer para o cliente [...] lê-lo. Se o público não sair feliz após os últimos dez minutos, então não irá recomendar o filme aos amigos.

    ...há nove ou dez cenas-chave que irão contar a história. Então a questão é: o que fazer com aquelas realmente interessantes que não se encaixam naquele cenário? E o que fazer quando existem aquelas terríveis lacunas entre elas: qual é o novo material de ligação e qual o novo ritmo? Porque não se mantém o ritmo do livro. 

   Como roteirista, sempre se pressupõe que o público  é como você próprio, e então presumi que, se eu me preocupava tanto com esse personagem, o público faria o mesmo.

   A realização da vida que você criou como roteirista é uma coisa impressionante de se testemunhar, especialmente pela primeira vez. William Goldman diz que o dia mais excitante da vida de um roteirista é o primeiro dia em que ele está no local da filmagem daquilo que escreveu, e o dia mais chato de sua vida é o segundo. O que é uma certa verdade.

   Gumb é um personagem muito mais rico no livro. No filme, ele realmente está reduzido a quase nada [...] eu na verdade não queria saber muita coisa a respeito de Gumb se Clarice não soubesse. Não queria pôr a plateia em posição superior a ela, porque isso teria rompido a ligação com ela.

   Usávamos o livro como nossa bíblia e, onde víamos uma oportunidade de levá-lo adiante, nós o fazíamos.

    O roteiro refletia o livro, que tinha barras e rede na cela. No último instante, Jonathan descobriu que efetivamente não poderiam filmar aquilo  -  não se poderia ter um olhar desobstruído para seus rostos, porque a emoção ficaria enfraquecida. Então a máscara de borracha foi um improviso desesperado no local da filmagem. Depois descobriram que a máscara poderia ajudar [...] visualmente, mas os atores não conseguiriam ouvir um ao outro. Então, os buracos foram improviso em cima de improviso.

   Todos os roteiros e tudo o que é escrito para cinema parecem voltar à mesma coisa, que é aprender o que se pode dispensar.


   E muito mais. Não garanto, mas adiante pretendo postar excertos extraídos das outras entrevistas. Estão ainda no livro, por exemplo, Chris Wetiz (Um grande garoto), Wes Anderson (Três é demais), Darren Aronofsky (Réquiem para um sonho), David O. Russel (Três reis), Guillermo Arriaga (Amores brutos).
   Inté.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

TWIN PEAKS, NETFLIX, DAVID LYNCH




Um Twin Peaks da terceira idade. 
Um desencontro no futuro, o mesmo clima onírico, o nonsense dramático, os típicos cenários e cenas que marcam a obra de Lynch.
Estou curtindo bastante acompanhar, a cada semana, um novo capítulo da série na Netflix.
Personagens idosos, intérpretes maduros, linhas narrativas perturbadoras.
Dale Cooper a assombrar a todos, em várias reencarnações.
O precioso tema musical de Badalamenti a embalar os créditos, a dar tom e ambiência ao espectador para o que virá, ou não.
E as oferendas musicais ao final de cada capítulo, no palco do Bang Bang Bar, sempre novidadeiras e muito interessantes. Tenho anotado os nomes das bandas e cantantes e, depois, pesquisado no Youtube. Só isso já vale a pena.
O estranhamento e a excentricidade configuram um realismo fantástico (ou seria surrealismo?, não sei bem) mais refinado e misterioso que na série original.
Agora não se trata de quem matou Laura Palmer, mas sobre o absurdo das permanências dolorosas, sobre o horror da barbárie humana cotidiana, no mais das vezes encapada pela singeleza e por uma ternura de navalha.
A nova série Twin Peaks está mais para redemoinho de neve no túnel do tempo.
Uma beleza.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A NOIVA JOVEM, ALESSANDRO BARICCO




     O mais recente livro do Baricco publicado no Brasil, "A Noiva jovem", eleva a alturas olímpicas minha admiração pelo trabalho desse escritor italiano. Topei na leitura com alternância de voz narrativa, que ouso praticar em minha prosa, num nível eletrizante e fluido - não simplesmente do narrador onisciente para um dos personagens, mas, também, de personagem para personagem, com mestria e elegância. E com pequenos manifestos teóricos, dignos de destaque. Bacana. A história de "A Noiva jovem", no que me pareceu inevitável, enfrenta o tema sexo com a justa ousadia que o assunto requer, costurado com lirismo e inventiva típicos do autor. E, ainda, para finalizar este breve comentário, com um narrador principal, por assim dizer, expondo suas dificuldades práticas enquanto pensa e escreve a história de uma extravagante família italiana no início do séc. XX. Depois de "Seda" e os mais recentes "Mr. Gwin" e "Três vezes ao amanhecer", este "A Noiva jovem" vem acrescentar uma galeria inteira de personagens e cenas inesquecíveis ao acervo de fantasia e poesia, que tudo indica inesgotável, de Alessandro Baricco e, por conseguinte, de seus leitores.

    Destaco um dos parênteses que o narrador abre na narrativa para teorizar sobre literatura e o trabalho que desenvolve, digamos, "diante" do leitor.

   "(Obviamente, paginazinhas como estas parecerão ao editor que se ocupará delas, dentro de alguns meses, totalmente inúteis e tristemente pouco funcionais ao decurso da narrativa. Com a educação costumeira, me sugerirá cortá-las. Já sei que não farei isso, mas desde o presente momento posso admitir não ter mais probabilidade de acertar do que ele. O fato é que alguns escrevem livros, outros os leem: sabe deus quem está na melhor posição para entender alguma coisa. O coração de uma terra se concede a quem a vê com adulto maravilhamento, pela primeira vez, ou a quem nasceu lá? Não se sabe. Tudo o que aprendi, quanto a isso, é resumível em poucas linhas. Escreve-se como se poderia fazer amor com uma mulher, mas em uma noite sem luz alguma, nas trevas mais absolutas, e portanto sem vê-la nunca. Depois, na noite seguinte, os primeiros que passarem irão levá-la para jantar, ou para dançar, ou às corridas, mas compreendendo desde o primeiro momento que não conseguirão sequer tocá-la, quanto mais levá-la para a cama. A todos falta um pedaço, e raramente o encantamento se descerra. Na dúvida, eu tendo a confiar em minha cegueira e a tomar por boa a memória da minha pele. [...])

   O sublinhamento é de minha autoria. Não só me identifico com o modus do narrador, como assim tenho dado minhas cabeçadas. E não vejo como ser diferente. Leiam Baricco, qualquer coisa, tudo, em especial este "A Noiva jovem", que tem tradução de Joana Angélica D'Ávila Melo, publicado pela Alfaguara, 2017.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO, de HARUKI MURAKAMI



    É apenas uma opinião pessoal, mas acho que, basicamente, escrever romances é algo bem maçante. Nesse ato não existe quase nenhum elemento de inteligência. O escritor se tranca sozinho no quarto e, compenetrado, modifica o texto, dizendo: "Não é bem assim, nem assim". Mesmo que ele consiga melhorar um pouco a precisão de uma linha depois de quebrar a cabeça o dia inteiro sentado à mesa, não receberá nenhum aplauso por isso. Não receberá tapinhas nas costas nem um "Parabéns". Somente ele balançará a cabeça satisfeito: "É isso aí". Quando o livro for lançado, talvez ninguém no mundo perceba a precisão daquela linha. Escrever romances é isso. Dá muito trabalho e é bastante tedioso.
     
    No mundo existem pessoas que montam a maquete de um navio dentro de uma garrafa usando uma longa pinça, e demoram quase um ano nessa tarefa. Escrever romances talvez seja parecido. Não sou muito habilidoso com trabalhos manuais nem sou capaz de fazer algo tão complicado quanto uma maquete, mas acho que, essencialmente, as duas atividades têm pontos em comum. No caso de romances longos, o trabalho minucioso vai durar dias e dias e dias, dias e dias. Quase uma eternidade. Somente as pessoas com vocação para isso ou que não sentem sofrimento nessa atividade conseguem continuar por muito tempo nela.


     Sigo aqui balançando a cabeça também e soltando boas risadas com o texto de Murakami. Misto de biografia e ensaio, esse "Romancista como vocação" é leitura das mais prazerosas e elucidativas. As questões comuns à escrita literária e ao mundo literário, com suas particularidades inevitáveis, são exploradas com honestidade, franqueza e bom humor, no mais das vezes. Não chega a ser um manual, é Murakami contando como viveu seus primeiros dias como romancista, como tem enfrentado as críticas, a pressão dos prêmios, o tempo, o tempo, e muito mais. "Romancista como vocação", de Haruki Murakami, com tradução do japonês de Eunice Suenada, saiu pela Alfaguara, 2017.

domingo, 11 de junho de 2017

LEITURA E VIDA

     Tenho lido muito. Nem sempre o que gostaria de ler. Mas nada de diferente de como sempre li, algo entre oportunidade e impulso. Detesto método, planejamento, essas tecnalidades, quando se trata de leitura. Típico de quem cresceu lendo o que encontrava pela frente, sem biblioteca ou orientação professoral. Aprendi assim, sigo assim, assim está muito bom. A vida escorre.

    Leio no rompante um livro como esse do Klíma, que postei abaixo. Narrado em primeira pessoa por algumas vozes, conhecemos a vida de uma dentista em Praga, divorciada de um marido que não esquece, com uma filha adolescente envolvida com drogas, um pai ligado ao terror comunista recém-falecido, uma irmã distante e uma mãe de repente solitária. E a vida hoje na República Tcheca, pós-imperialismo soviético. Claro que o mundo da dentista, já abalado por uma indisposição à vida, sofre uma mexida com a presença de um jovem ex-aluno do ex-marido, com que passa a se relacionar amorosamente. Bem, o resto é o prazer de acompanhar as diferentes vozes narrando seus encontros e desencontros. E com o brilhantismo de um romancista completo, essas vozes seduzem por suas marcações próprias, seus olhares e interpretações exclusivas, num trabalho de linguagem que reputo como impecável, no que estou a elogiar a tradução.

     Tenho mais uns livros com marcadores ao meio: "Árvore de fumaça", de Denis Johnson, "Diego e Frida", do Le Clézio, que não consegui concluir por mero desencontro físico, "Babilônia", de Ruy Espinheira Filho, que exige sempre leituras muitas, a antologia de Sosígenes Costa, e duas preciosidades que ainda não abri: o último volume da tetralogia napolitana de Elena Ferrante e "Romancista como vocação", do Murakami. Tudo isso por aqui, em algum lugar. Ou no banco de trás do carro.

      E a vida? Ah, esta escorre às vezes para o bueiro, outras para um lago tépido ou mar revolto. Deixei de cuidar do rumo, mas ainda lembro que para esquecer que ela se parece mais com enxurrada, leio sempre, em qualquer lugar, os mais diversos livros que consigo alcançar.

     Claro que descanso de minhas leituras lendo a Bíblia para minha filha. Isso, até o novo livro da Larissa Manoela... bem, melhor não adiantar o cortejo.